Metrô e Filosofia por Alexandre Bhering

Metrô e Filosofia por Alexandre Bhering

Alexandre Bhering

Alexandre Bhering

O vagão cumpria seus serviços matinais se dispondo a correr sobre os trilhos , parar nas estações e compassar às portas nesse bota-pra-dentro , bota-pra-fora , de gente variada , completamente incatalogável aos manuais de qualquer saber classificatório .

A intra-mistura é tão extraordinária , um caldeirão de temperos tão variados , que é impossível uma categorização que dure mais de dois minutos , tendo-se em conta a indicação pós-moderna da falência de meta-estruturas , que pelo menos ajudavam a escolher algum traço comum pra uniformizar o olhar .

A manhã abertamente disponível com seus ares e luminosidade , já sofre certo baque quando as escadas que levam à estação distanciam-se da luz do sol e troca-se a iluminação por lâmpadas variadas , o artificialismo é irrecusável , já que o lusco –fusco se impõe ,e percebe-se que estamos em sub-solos gigantescos , símbolos do poder que a tecnologia deu a criatura humana .

Lá vem ele , todo mundo se apruma , se apressa , busca-se lugares de entrada , na pressa desejante de sentar , um lugar é um oásis nessa epopéia abissal que Ulisses jamais sonhou em fazer , e …. guardado certo código que a civilidade impõe como critério entre o são e o insano, pimba , olhares rápidos , aflitos , gestos grotescos ali permitidos pelo desespero diário ,e pronto , quem sentou sentou , quem não sentou … sei lá , fica em pé mesmo ou espera o impossível …. esvaziar .

Uma vez dentro , a viagem . E aí começa nosso registro , um ato estético com o mesmo propósito de distrair o tempo , linguagem comum naquele vagão obediente e generoso , pois logo após a partida , os corpos procuravam algum ponto de ajuste , possível enquanto o metro entre um e outro permitia .

De imediato a pós-modernidade avança e logo os aparelhos celulares , que estão cada vez maiores , são sacados e a atenção hipnotizada , de formas que a sensação de vacuidade do outro logo se instala . Ninguém a grosso modo se olha , os rostos nada interativos , uma sensação de pestilência repetitiva , um tipo de praga do destino a ser cumprida sem grandes debates , uma impotência mecanizada na pobreza dos gestos e no afã de chegar e sair dali , até que tenha que voltar .

O tédio burocrático é disfarçado pelas ocupações do dia que na agenda mental já começaram e observa-se uma nuance nos rostos que vai desde o sono castrado, indicado pela aura sonolenta da criatura , até o tipo atlético já pronto pra entrar na arena . Em linhas gerais, o quadro não é de animação ou alguma espontaneidade simpática , pelo contrário , parece que Sísifo deixou herdeiros aborrecidos , vigiados por Cronos , e obrigados a repor as pedras sem nenhuma causa nobre em jogo .

Evita-se ali qualquer questão maior , pois mexer coma cumplicidade do automatismo pode ser fatal , já que a insatisfação pode , ao abrir seus protestos, tornar a tarefa de viver mecanicamente ainda mais insuportável , ferida incurável , pois pela lógica desse monstro hiper-moderno que é o Mercado , qualquer peça pode ser substituída fácil , sensação horrorosa de pouca ou nenhuma importância , lógica que muitos escravos do passado dispensavam ao contar com a consideração dos seus Senhores .

Há ali uma equalização linear tipo torpe , que não parece não se comover com nenhuma outra questão maior , uma colagem onde a vida parece toda contida de forma chula no script mental notoriamente repetitivo ,e onde a noção de Super-Homem ou Além do Homem , não entrou em nenhuma estação .

Se há ali alguma pretensão não parece ser o de seguir o que diz Zaratustra , figura extra-terrena para o sub-solo do metrô , nenhuma Vontade de Poder , nenhum rasgo de altura , secura que deixa os filósofos longe , embora , Schopenhauer visse ali que o tédio é a palavra de ordem e o niilismo , sem nenhuma debate de sentido , é cumprido mecanicamente em obediência ao que o “consensus omnium “, esse Coletivo cheio de padrões estabelecidos , nos obriga .

Um quase total des-politização da vida , já que o Senhor é totalmente impessoal , o Estado é  a-moroso , e as empresas fazem do mérito uma discriminação em nome do elogio , a criatura trabalha para sustentar a si , aos outros , um ideal , enfim , uma vida que se sucede sem poder agendar questões maiores , já que a mecânica do movimento há de se cumprir por obediência voluntária , economia importante já que joga o conflito para um desmerecimento sedativo .

Por Alexandre Bhering

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