O Xamanismo na vida urbana – Parte 1

O Xamanismo na vida urbana – Parte 1

Por Athamis Barbara.

foto athamisVou contar para vocês um pouco de mim para que no final possam dizer: tudo isso que ela disse é baseado em sua própria experiência de vida. E assim, eu já começo a passar um dos ensinamentos antigos: a história não é uma teoria; a história é a experiência de vida.

Nasci de pais amazonenses. Descendo como a maioria dos brasileiros de vários povos, mas meu corpo físico e minha alma optaram por uma cor: sou cabocla. Meu pai era descendente direto de índos amazônicos.

Não nasci numa tribo, mas tenho na minha alma o espírito de tribo. E devo ter herdado dos meus ancestrais a visão em sonhos. Durante minha infância tive sonhos premonitórios. Herdei de minha mãe e certamente da família de meu pai. Mas fui criada na cidade (Manaus) e fui para escola católica.

A espiritualidade, para mim, sempre foi a mais importante vivência. Religião nem tanto, mas Deus, o Criador, sim. Então cresci aprendendo a professar minha fé na forma católica.

Quando, aos vinte anos acredito ter passado pelo que chamamos nas tradições ameríndeas de “morte do xamã” (passei por problemas muitos graves). Eu fui até o inferno e não permaneci aí porque busquei a espiritualidade. Os sonhos novamente vieram de forma muito forte, até eu ser guiada a encontrar uma tribo que a duras penas conseguiu recuperar seus antigos rituais.

Já havia feito tenda de suor no Brasil, mas foi no Canadá que entendi melhor os ritos. Fiz tenda de suor, aprendi a fazer meu primeiro filtro de sonhos, aprendi sobre os mocassins, aprendi sobre os sete ensinamentos dos avós, a importância de se respeitar os mais velhos, a importância de ser gentil e ajudar a comunidade e tantas outras coisas. Mas foi com o tambor que acho que aprendi a unir a cabeça ao coração.

Aprendi a fazer tambor segundo a tradição Ojibway com Kelly Van Raalte que havia aprendido com outro ancião Ojibway. Aprendi a parte física. Ouvi os ensinamentos. Mas foi apenas assistindo a esta minha mentora branca, mas de coração Ojibway, que entendi sobre o espírito do tambor. Ela conversava com ele. Ela trocava idéia com o que ela chamava de AVÓ. O tambor é uma avó porque são os avós que ensinam a tradição para os netos enquanto os pais estão trabalhando.

Enquanto estava com meus amigos Ojibway ou naquela energia deles eu me sentia em casa. Quando voltava ao Brasil eu sentia falta da minha família de alma. Foi quando fui incentivada pela minha mentora a formar uma “tribo”. Contei para meus amigos sobre o que eu vivera e começamos a usar cada vez mais rituais que nos reconectassem à fonte, ao Divino.

Usamos o tambor para fazer jornada xamânicas. Nessas jornada nós podemos ir para o mundo superior, inferior ou mundo do meio e nestes mundo ter contato com os espíritos.

Preciso explicar que a palavra xamanismo é uma criação da antropologia. Ao estudar os xamãs siberianos eles usaram uma palavra que se assemelha ao som em português a XAMÃ. Quem é xamã professa o xamanismo. Só que essa palavra nos remota a religião e não é. Não existem normas e regras religiosas ao xamanismo, mas sim a cada tradição ligada a terra e que utiliza seus líderes espirituais como fonte de ligação do céu à terra.

No Brasil, temos os pajés que fazem esta conexão. Um pajé se assemelha ao xamã siberiano, mas não é a mesma coisa. Lá na sibéria o xamã usa o tambor, aqui no Brazil o pajé usa a maracá. Temos também as plantas enteógenas que ajudam os membros de uma tribo a acessarem os espíritos. Mas nem todos os membros desta tribo são xamãs ou pajés. Nem todos que tocam tambor são xamãs. Nem todos que tocam sua maracá são pajés.

Então, explicada essa confusão, quando falarmos sobre xamanismo é bom explicarmos se seguimos uma certa tradição nativa ou não. O neo xamanismo utiliza ensinamentos de várias tribos e não apenas de uma. Na cidade, devido à facilidade que temos em encontrar pajés e homens de medicina de várias tradições, acabamos por aprender com vários.

Eu optei por seguir a tradição Ojibway pois foi esta que me tocou o coração. É uma tradição muito feminina e espiritualizada. Mas sou amazônica e minha família fez uso de ervas, guaraná e rapé; fumaram cachimbo. Eu uso isso no meu dia-a-dia por opção. Mas também integrei o tambor e as jornadas xamânicas.

Não vejo mal algum nisso. Sinto isso de forma honesta comigo mesma.

Para vivenciar uma tribo eu precisei criar uma rede de amigos e parceiros de trabalho até culminar na criação do Centro Nowa Cumig que foi abençoado pelo Homem Espiritual e Guerreiro Dennis Banks, Ojibway.

Neste centro eu dou aula sobre os ensinamentos Ojibway, temos aulas de cantos nativos, aulas para aprendermos a fazer jornadas, encontros de mulheres, rodas de cura, rito do fogo e aulas sobre outras tradições.

Continua na parte 2 ….

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