Por que nos maltratamos? por Alexandre Bhering

Por que nos maltratamos? por Alexandre Bhering

Foto_AlexandreCurioso é que depois de tanto tempo de convívio , depois de estarmos juntos em tantas construções espetaculares, nos orgulhando de nossa capacidade criativa e artística , nos oferecendo verdadeiros êxtases que levam a vida às alturas siderais , que abrem a beleza do Infinito enquanto um desafio eterno , ainda nos maltratemos .
Se juntos somos capazes de tanto , se tiramos a vida de seu estado bruto, se somos capazes de comoções profundas quando vemos os horrores, sendo traduzidos pelos estragos, que fazem de forma irreversível na alma, então porque nos maltratamos ?
Somos parceiros há tanto tempo , já passamos por guerras insuportáveis , já fomos dizimados várias vezes por pragas e pestes que sequer consideravam nossos prantos , já tivemos nossas famílias destruídas , já fomos objeto de gozo sádico na mão dos ditadores , já frequentamos a crueza do desespero sem esperança alguma , então porque nos maltratamos ?
O que fizemos uns aos outros para estarmos sempre prontos a recomeçar ? _ como se tudo isso de pronto, se torna um esquecimento que nada nos tivesse ensinado , uma amnésia das imagens horrorosas de mães gritando dores inaudíveis tamanho sua intensidade , gente clamando por justiça contra os absurdos que foram vítimas com recheio de humilhações que degradam a criatura , a tudo isso assistimos mais do que nunca nesse mundo perto , mas o que há conosco ?
Somos incorrigíveis ? Nos interessa mais a casuística do momento que nos garante o interesse? Somos monstros falsamente doutrinados por uma civilidade que não resiste a determinadas provações, como Einstein espantado perguntava a Freud ?
Por um lado um desenho dos acontecimentos, que se decidem à revelia de nossa vontade participativa, decisões que impõem à ordem maior uma série de ações, que nos faz plateia e nos faz rezar para que os estragos não sejam muitos , como por exemplo , um bombardeio que nas novas premissas absurdas da guerra , não poupam mais os civis e lá vão crianças , mães, pais , idosos , um grupamento indiscriminado ceifados em suas vidas por …. ?
Não sabemos responder , pelo simples fato de que, todo nosso mundo construído em cima de determinadas lógicas de convívio ruíram e a criatura singular , essa que é única , que tem sua vida , seu sonho , seus projetos , seus amores e suas dores , tem se tornado insignificante quando os interesses corporativos estão em jogo .
Porque não matar se é justamente a morte horrorizada que é evocada como signo da intimidação, como símbolo da força punitiva que busca intimidar , impor e fazer recuar as razões inimigas ?
O cidadão , esse que anda nas ruas para levar a vida adiante , esse que a cada passo persegue seus propósitos , que luta pra pagar o preço que a vida nos cobra pra viver , é um alvo fácil e frágil para intenções que visam atingí-lo , pois além de ter a civilidade como crença básica , se submete a sua legislação, na suposição de que a sabedoria ancestral está sendo respeitada por todos ,e que sua integridade é uma valor consensualmente considerado .
Até começar a desconfiar que não , que não é bem assim , que toda suposta consideração universal de seu valor, pode terminar pura e simplesmente com um tiro estúpido que lhe rouba a vida sem nenhuma razão plausível .
O absurdo sem razões tem mostrado sua força diária, que inaugura um território muito diferente daquele , que levaram as razões filosóficas a questionar o sentido da existência em seu non-sense ou em sua grandeza cósmica , pois ainda aí a nobreza da razão colocava a questão de forma nobre como instigação do pensamento .
Nesse caso citado , não há nobreza alguma , questão filosófica alguma , nenhum exercício da razão elevada , mas pelo contrário , uma visceralidade do horror que nos constrange e nos amedontra a cada passo a ser dado , pois já incorporamos a maldade perversa e ilógica em nossas referências cotidianas e já temos o medo fóbico como nosso escudo antecipatório .
Como viver ? Como viver sem esse constrangimento opressivo que nos joga cada vez mais para o ensimesmamento fantasioso , compensação única que nos faz buscar algum ressarcimento para os pedaços territoriais que já não frequentamos tanto por fora como por dentro ?
Nos tornamos um animal acuado que pode ser pego a qualquer momento , qualquer momento pode ser a nossa vez , é o que vemos todo dia no noticiário , onde o cidadão por demorar a sair do carro leva um tiro inumano que acaba em um minuto com uma construção trabalhosa e cheia de proposições para o depois .
Vemos aí que não há autoridade que nos proteja , agravado pelo fato contraditório de descobrirmos que muitos representantes da Lei , pelo contrário, usam –na para melhor nos acharcar e sequer se importam conosco , um cinismo odiento que o filósofo denunciou .
Obviamente ,e aqui a banalidade do mal , talvez só em parte siga Arendt , pois não é um mal obediente e indiferente , mas um mal cínico , dissimulado e ativo em suas formulações , trapaceiro na imagem e nas intenções, e que nos confunde ainda mais ,a ponto de muitos preferirem a honestidade dos ladrões .
Nesse cenário de horror a vida prossegue como sempre , mas nos exige cada vez mais sacrifícios , principalmente para não perdermos de vez nossa disposição afirmativa e nos entregarmos as sombras que Gabriel Marcel , o existencialista cristão , nos alertou . Somos 350 milhões de deprimidos que cada vez mais dependemos de medicações caras que oneram o orçamento e engordam as indústrias que agem em nome da vida , ou da sobrevida .
Nossas relações amorosas não ficaram impunes e a desconfiança no mundo penetra em tudo , pois ficamos mais ressabiados em nossas entregas , a vida ficou cara para ser vivida e já não suportamos encargos que nos exijam mais , logo , compromissos que fazem do amor uma duração como diz Badiou , também nos faz pensar antes de entrar .
Acontece que não é da natureza do Amor ser muito pensado , sua espontaneidade é sua marca de imprevisível , um exercício para o extra-ordinário da vida , uma ruptura de limites estabelecidos e uma viagem para um extra , uma outra cena, no linguajar freudiano.
Mas passamos então a pedir segurança que já não temos em nenhum lugar , e a indicação disso, é aquele telegrama impessoal que te dispensa sem maiores explicações , agradecendo friamente seus serviços e te dispensando , e quando se vai a empresa se tem a grata companhia do segurança te acompanhando até a mesa , por que são “normas da casa”.
Com tanta destituição narcísica , só nos resta nos territorializar em nossas malditos ressentimentos que envenenam nossas vidas e aos poucos, somos nós que vamos saindo da condição de vítimas dos maltratos e passamos ao ataque para devolver as lesões que consideramos injustas a existência .
E assim vamos criando um exército de seres vingativos assumidos ou dissimulados , que envenenam a vida em seus prazeres e no gosto de estarmos juntos nessa epopéia tão maravilhosa que nos dá o sol a cada dia , as flores , a noite dos poetas com suas estrelas , uma boa companhia para viajar , um bom vinho com suas névoas moderadas, que nos permite conversar sabiamente, como diz Scruton .
Uma lástima que tem comparecido em nossos prantos profundos , pois não se pode jogar fora impunemente o que a vida tem melhor , caso em que ela mostra também seu outro lado tenebroso e sádico . Que tal começarmos a resistir , uma revolução radical em nossos modos bélicos e estúpidos ,e abrirmos um laboratório particular , onde em cada ato me pergunto se ratifico ou me diferencio do que condeno ?
Agradeceria às devoluções

Por Alexandre Bhering.

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