TREVAS NO SÉCULO XXI, por Alexandre Bhering

TREVAS NO SÉCULO XXI, por Alexandre Bhering

Foto_AlexandreEm seu livro , cujo título estou parodiando , Monier escreve sobre “ As sombras de medo sobre o século XX , indicando que era esse o sentimento que perpassava toda Europa , que atônita entre duas guerras em menos de vinte anos com o saldo de 90 milhões de mortos, ainda procurava no que crer , já que a guerra “ não mata somente os mortos”.
Eis a citação que escolhe , que nos faria dizer que era testemunha ocular de umas das maiores barbaridades em voga no momento : “E a terça parte dos navios foram destruídos” . E então uma massa enorme , em brasa, como uma grande montanha , foi projetada ao mar . E a terça parte do mar tornou-se sangue .E morreu a terça-parte das criaturas que estão no mar . E a terça-parte dos navios foram destruídos .
( Apocalipse , VIII , 8-12 )
Ao perceber que a existência no palácio paterno era um esconderijo das mazelas do mundo , o ex-príncipe Shidarta vive a primeira comoção ao encontrar um velho bastante gasto, dizem ,e fica impressionado , perguntando para seu cocheiro “ O que é isso ? . É uma das direções da condição humana , responde o fiel aliado .
Essa primeira grande descoberta , não por acaso , dá aquele que viria a ser uma das maiores personalidades de todos os tempos , a oportunidade de ser apresentado não exatamente a literalidade da forma , mas ao tempo degradado de Platão . Esse tempo imbatível que faz tudo sucumbir , como se o baixo nos esperasse com suas certezas .
Monier , feliz escolhe o mar , o sequestro dos mistérios oceânicos , para dizer que o vermelho é intruso , um tipo de violação onde o gosto humano revela seu lado sinistro , pois utiliza a onipotência das águas incontáveis para torná-las cúmplices de assassinatos cruéis e sanguinários .
Já de posse de suas clarividências extraordinárias como expressão de seu coração nobre e de extrema dignidade , Buda logo constata o que aos poucos vamos também , ou seja , a existência é triste , pois haverá de se degradar e o sofrimento será inevitável .
As sombras avançam e se em Mounier a constatação partia de razões conhecidas e deploráveis, hoje ao contrário , já não são só as causas maiores que movimentam a destruição, mas o que há de mais banal serve perfeitamente como álibi para um assassinato a luz do dia .
A Terra , essa que Buda viu consumir as ilusões humanas , tanto quanto o Mar que compõem toda camada planetária , tornaram-se palcos para o que temos de pior , que diga-se , uma vez provocado, se engendra em dinâmicas tão próprias , que já não sabemos como pará-lo, talvez sofrendo aí das inversões que nos lembram que o Infinito era a ficção das alturas , o esforço pelo melhor ,e não a decadência incontrolável que o tornam endereço do Inferno das piores intenções .
A banalidade do Mal deixou Arendt para trás , pois saiu até mesmo de sua burocracia sem alma , de sua anomia indiferente, e avançou para territórios públicos onde toda institucionalização da vida que consagrava a concordância como sendo o patrimônio do bem comum , mesmo que forçadamente na ótica freudiana com sua Horda primeva , sofre estragos profundos, cujo preço demoraremos a pagar .
O mar é um cenário de barbaridades indescritíveis e de cinismos horripilantes , herdeiro do que não se resolve em terra , recebe os indesejáveis tal como Foucault observara em sua nau dos insensatos , só que agora são os fugitivos e os expatriados , os que clamam em sua herança pela justiça que os dominadores não se preocuparam em estabelecer como legado ,a maldita lógica do Senhor, que não concebe ao escravo o direito do futuro digno .
Uma vez no gozo por que a alteridade diferenciada ? O outro aqui é uma mera extensão do que interessa , ao prazer do mais , do mais-gozar diz Lacan . Pois é essa subtração que ficará como retorno da integridade , como fantasma de Hamlet querendo justiça ,e que operações repressivas e mesmo jurídicas não poderão conter seu clamor .
Somente o vídeo com seus recursos, talvez pudesse nos contar o que se passa no mar dos naufrágios assassinos onde homens , mulheres e crianças , entregues ao destino onde as ações humanas já não chegam , vivem o horror indescritível de se afogarem na dor profunda e solitária onde o sonho de chegar , chega ao âmago do que sempre foi … um pesadelo de terror.
E se Freud dizia temer a Psicanálise nas mãos dos psicanalistas , Buda então , Senhor da compaixão , deve estar chorando quando descobre que seus discípulos se tornam assassinos vingativos e desalmados , se comprometendo com o Karma da pior espécie possível , e fazendo girar o Samsara não mais como roda da vida , mas das trevas .
É o próprio cotidiano em suas trivialidades rotineiras que passou a abrigar a violência desmesurada , que já não precisa de razões , pois diz Baudrillard , já não é o violento mas o cruel , que tem se tornado um idioma estúpido e intraduzível pelas melhores teorias de plantão.
O sucateamento da vida e do gesto humano , uma coisa e outra , como se retrocedêssemos em nossa sensibilidade , a ponto de Einstein indagar Freud sobre as razões da guerra ,e nós já não temos a quem indagar , pois na barbárie o ato antecede a palavra , pergunta-se “ porque matou”… e agora com faca e não há o que dizer , o que tem chocado pela falta de sonoridade que nos permite reconhecer o humano .
Com isso o ódio avança e a cultura é de destruição e vingança , tornando a vida não triste , como dizia o Amigo , mas insuportável, como parece clamar os filósofos do deserto de areias pessimistas, como se o Absurdo dispensasse a qualidade do ato humano que se vê frente a tarefa de construir o que lhe compromete .
Dores indizíveis e intraduzíveis dispensam o teórico por ultrapassá-lo em suas elocubrações ou promessas, e onde parece cada vez mais difícil dizer alguma coisa , pois jogar no real sem o conforto do porque vale a pena viver é tarefa para poucos, ou que procuram algum tipo de iluminação ou viram algo que a maioria sequer chega perto como Além do homem.
Mobiliza-se as explicações e mesmo assim as trevas não se deixam capturar pelo que explica , como se a explicação que situa a distância do objeto como condição epistêmica já não convence tanto . Isso significa que o trabalho é construir o que se pretende teorizar ,e talvez por isso nosso academicismo esteja tão claudicante , pois Marx talvez tenha razão a “ a hora não é só de interpretar mas de agir “ .
E agir enquanto que me tomo do aonde quero chegar , seja para viver o alcance ou o limite que devolve minhas pretensões , já que a tal Ética é o modo como exercito a inocência do mundo que ofendo pelo que minha civilidade ainda não compõe .
Num mundo onde a mentira se coloca como instância política , é difícil precisar o valor de qualquer verdade , que por sua vez é empurrada a terra e ao mar para mostrar ao que sua falta nos condena .
Buda nos fala de sua tristeza e Yemanjá já não tem como socorrer tanta gente , desmoronamento que nos coloca na rota de Dante com seu Inferno .

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